O último Carnaval foi mais do que espetáculo. Foi uma demonstração clara de que maturidade não é sinônimo de passado. É ativo estratégico. A vitória da Unidos do Viradouro no Carnaval do Rio de Janeiro não pode ser lida apenas como resultado de alegorias grandiosas ou de uma bateria pulsante. Ela é, sobretudo, a consagração de uma liderança experiente. Ao colocar no centro do enredo a trajetória de Mestre Ciça, a escola reafirmou algo que o mundo corporativo ainda aprende com dificuldade: excelência sustentável nasce de memória, método e vivência acumulada.
Mestre Ciça não é só um nome reverenciado na Sapucaí. Ele representa décadas de disciplina, escuta, capacidade de formar talentos e, principalmente, de atravessar ciclos sem perder identidade. Em um ambiente onde a pressão por desempenho é extrema e o julgamento é público e imediato, a serenidade de quem já viu de tudo faz diferença no resultado. A juventude imprime energia, ousadia e velocidade; a maturidade garante cadência, leitura de risco e consistência. Foi essa combinação que conduziu a Viradouro ao topo.
Mas reduzir essa vitória a uma liderança seria injusto. O Carnaval é uma cadeia produtiva complexa, uma verdadeira operação que mobiliza competências diversas ao longo de todo o ano. Nos barracões, costureiras com décadas de experiência transformam croquis em fantasias com precisão quase cirúrgica. São mãos treinadas pelo tempo, capazes de antecipar problemas e entregar acabamento impecável sob prazos exíguos. Ao lado delas, jovens aprendizes absorvem técnica e cultura, garantindo sucessão e continuidade.
Na ala dos compositores, a maturidade também imprime densidade. O samba-enredo vai além do refrão contagiante. Ele traz narrativa, construção simbólica e interpretação da história. Muitos dos versos que embalam multidões nascem da cabeça de sambistas que viveram diferentes fases do país e traduzem essa bagagem em poesia popular. A velha-guarda, por sua vez, é mais do que ala tradicional, é conselho consultivo informal, guardiã de valores, referência ética e estética. Ela não compete com a juventude. Ela a orienta.
Na avenida, vemos o brilho dos passistas e a potência dos ritmistas mais jovens. Mas por trás de cada giro preciso, há ensaio, orientação, correção e transmissão de conhecimento. O Carnaval é um ecossistema onde gerações convivem sem que uma anule a outra. Ao contrário, elas se potencializam. É a integração entre vigor e experiência que sustenta o espetáculo. É governança cultural aplicada em escala máxima.
Talvez por isso o Carnaval brasileiro seja uma das festas mais monumentais do planeta. Não apenas pelo tamanho das alegorias ou pela audiência global, mas porque domina uma competência rara: a de unir juventude e maturidade em um mesmo projeto, com clareza de propósito e excelência na execução. Em tempos que frequentemente descartam o sênior em nome do novo, a avenida nos lembra algo essencial. O futuro não se constrói sem memória. E quando experiência e energia caminham juntas, o resultado é extraordinário.


























