Se você não é um baby-boomer, existe uma possibilidade de que não tenha lido “As aventuras de Huckleberry Finn”. Por outro lado se você for um millenial ou da geração Z é bem possível que tenha assistido a série da Prime Video.
Mark Twain publicou As aventuras de Huckleberry Finn em 1884. O livro é lembrado pelo debate sobre racismo na América, mas há outra camada que costuma passar despercebida: a relação entre Huck e o mundo adulto revela uma estrutura de poder onde a juventude é desconsiderada por princípio.
Huck é um garoto de treze anos que foge de uma sociedade que quer “civilizá-lo”. A Viúva Douglas e a Srta. Watson representam essa pressão: a natureza do menino precisa ser corrigida, seus hábitos são “sujos” e “errados”, sua perspectiva de mundo não tem valor. A agência e o julgamento moral de Huck simplesmente não contam. Ele é menor, portanto precisa ser moldado por instituições que sabem melhor que ele o que é bom para ele.
Pap Finn, o pai, representa a forma mais violenta desse etarismo. Ele vê o filho como posse, como fonte de renda. Sente-se ameaçado pelo fato de Huck estar aprendendo a ler, algo que ele próprio, como adulto “superior”, não consegue fazer. A ironia é brutal: o homem que não domina as letras reivindica autoridade sobre quem as está dominando. A idade, não a competência, define quem manda.
Há também a questão financeira. Huck possui uma pequena fortuna, mas não tem controle sobre ela. O dinheiro fica sob a tutela do Juiz Thatcher. A mensagem é clara: um jovem é incapaz de autogoverno, mesmo quando demonstra mais discernimento que a maioria dos adultos ao seu redor.
Twain usa esse jovem “inexperiente” para expor a hipocrisia adulta. Os personagens que se consideram moralmente superiores, porque são mais velhos e “civilizados”, são os mesmos que defendem a escravidão. O preconceito etário serve para manter um status quo injusto. Se Huck não pode opinar porque é criança, também não pode questionar as barbaridades que os adultos cometem.
Quando pensamos em etarismo, o reflexo imediato é imaginar o preconceito contra os mais velhos. Há razão para isso: o mercado de trabalho descarta profissionais 50+ como se a experiência fosse defeito; a publicidade finge que pessoas acima de sessenta não existem; a tecnologia é desenhada como se todos tivessem nascido com um smartphone na mão.
Mas o etarismo opera em todas as direções. Os jovens também são sistematicamente subestimados, descartados como imaturos, tratados como incapazes de contribuir até provarem o contrário. E mesmo quando provam, a prova nunca é suficiente. Sempre haverá um adulto para dizer que falta experiência, que falta vivência, que falta tempo de estrada.
Hoje, criticamos as novas gerações com uma facilidade impressionante. Millennials são narcisistas. A geração Z não aguenta pressão. A Alpha está perdida nas telas. Os rótulos se sucedem como se cada nova leva de jovens fosse uma versão mais defeituosa da anterior.
Twain nos lembra que essa dinâmica não é nova. A sociedade adulta de 1884 também olhava para Huck como um problema a ser resolvido, não como uma pessoa a ser ouvida. E Huck, fugindo pelo Mississippi com um escravo fugido, demonstrava mais humanidade que todos os respeitáveis cidadãos que o queriam “civilizar”.
Talvez, antes de rotular a próxima geração, valha a pena perguntar: o que eles estão vendo que nós não conseguimos ver? Que hipocrisia nossa eles estão expondo ao simplesmente existir de forma diferente?
Huck fugiu da civilização porque a civilização não fazia sentido. Os jovens de hoje não estão fugindo. Estão construindo outras formas de estar no mundo. Podemos insistir em “civilizá-los” à nossa imagem, ou podemos fazer o que Twain fez: observar com atenção, escutar com humildade, e reconhecer que às vezes quem tem treze anos enxerga mais longe que quem tem sessenta.
O etarismo, em qualquer direção, nos empobrece. E a literatura está aí para nos lembrar disso, se tivermos a coragem de prestar atenção.
























