J.D. Salinger publicou “O Apanhador no Campo de Centeio” em 1951. Desde então, o livro é lido como retrato da adolescência em crise, do isolamento, da busca por identidade. Mas há uma dimensão que passa despercebida com frequência: o que Holden Caulfield experimenta ao longo de toda a narrativa é, em grande medida, etarismo: o preconceito baseado na idade, aqui exercido contra um jovem por um mundo adulto que não o reconhece como interlocutor legítimo.

Holden tem dezesseis anos e acabou de ser expulso de mais uma escola. Ele vaga por Nova York durante três dias, incapaz de voltar para casa e enfrentar os pais. Durante essa viagem por um mundo hostil, o que ele encontra não é indiferença: é uma série de interações onde sua perspectiva é sistematicamente descartada, sua voz é ignorada e sua presença é tolerada quando conveniente e descartada quando não.

A palavra que Holden usa com mais frequência para descrever o mundo adulto é “phony” (falso, hipócrita). Ele aplica o termo a professores, a colegas mais velhos, a adultos em geral. É fácil ler isso como imaturidade, como a incapacidade de um adolescente de aceitar a complexidade do mundo real. Mas Salinger não é tão simplista para nos deixar tão confortáveis assim.

O que Holden percebe, ainda que não tenha vocabulário para nomear, é que o mundo adulto opera por convenções que protegem status e poder, não verdade. As escolas ensinam a performar competência, não a desenvolvê-la. Os adultos pedem que os jovens “se comportem” sem nunca explicar para quê ou para quem.

Quando Holden questiona isso, a resposta é a mesma de sempre: “Você vai entender quando crescer.”

Três mecanismos de etarismo contra jovens se repetem ao longo do livro.

O primeiro é a infantilização. Holden é tratado como incapaz de tomar decisões sobre sua própria vida, a saber: onde estudar, o que quer ser, como interpretar o que vê ao redor. Suas opiniões são descartadas como “fase”. Sua dor é minimizada como “drama de adolescente”. Os adultos ao seu redor sempre acreditam saber melhor do que ele o que ele precisa.

O segundo é a repressão da ação. Holden é constantemente impedido de agir por seus próprios critérios. As instituições, escola, família, normas sociais, existem para enquadrá-lo, não para desenvolvê-lo. Cada tentativa de autonomia é lida como rebeldia patológica, não como afirmação de identidade.

O terceiro é a desvalorização da voz. Há uma cena representativa: Holden tenta conversar com um professor, o Sr. Spencer, que lhe diz que a vida é um jogo e que é preciso jogar pelas regras. Holden escuta, agradece, vai embora. E pensa: “A vida é um jogo, tudo bem. Se você está do lado onde ficam os bambambãs, então é um jogo. Mas e se você está do outro lado?”¹ Ninguém está interessado nessa pergunta. Ela não cabe no roteiro.

O campo de centeio

O título do livro vem de um sonho que Holden descreve perto do final da narrativa. Ele imagina um campo de centeio onde crianças brincam perto de um precipício. E se vê como o único adulto ali, de braços abertos, pronto para pegar quem estiver prestes a cair.

É uma imagem de proteção, mas também de melancolia. Holden não quer empurrar os jovens para dentro do mundo adulto mas impedir que esse mundo os capture antes do tempo. Ele sabe, instintivamente, que algo se perde nessa passagem. Que o preço da “maturidade” costuma ser a supressão do que é autêntico.

Já escrevi aqui sobre Dorian Gray, que tentou congelar a juventude para escapar do julgamento do tempo. Sobre Huckberry Finn, que fugiu da “civilização” adulta a bordo de uma jangada. Holden não foge: ele vaga, observa, registra. E o que ele registra é um mundo que não sabe o que fazer com ele e prefere enquadrá-lo a escutá-lo.

O etarismo contra jovens não aparece sempre como violência declarada. Ele aparece na forma de condescendência sistemática, de autoridade não justificada, de voz descartada antes mesmo de ser ouvida. Salinger captou isso com precisão pela boca de um garoto que muitos leitores adultos ainda hoje descrevem como “difícil”, “imaturo” ou “chato”.

Talvez essa seja a melhor evidência de que o livro ainda é necessário.

¹ SALINGER, J.D. The catcher in the rye. Nova York: Little, Brown and Company, 1951. Tradução livre do original: “It’s a game, all right. Game, my ass. Some game. If you get on the side where all the hot-shots are, then it’s a game, all right — I’ll admit that. But if you get on the other side, where there aren’t any hot-shots, then what’s the game about?”



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