Há um sério desalinhamento entre discurso e prática no mercado de trabalho. Enquanto organizações afirmam valorizar diversidade, experiência e visão estratégica, ainda hesitam diante do profissional 50+. Não se trata de um conflito ideológico, mas de uma incoerência operacional. Simplesmente não há lógica consistente que sustente essa resistência.

Os 50+ de hoje não guardam relação alguma com os de décadas atrás. Em um passado não tão distante, muitos ingressavam no mercado ainda adolescentes, acumulavam desgaste precoce e, ao chegar aos 50 anos, viam na desaceleração um objetivo legítimo. Era outro contexto econômico, social e até de expectativa de vida. Generalizar aquele perfil para os dias atuais é um erro grotesco de leitura de cenário.

Hoje, o profissional de 50, 60 ou 70 anos opera em outra lógica. Cuida da saúde, mantém rotina ativa, investe em atualização contínua e, sobretudo, preserva ambição. Há uma combinação rara entre repertório acumulado e disposição para aprender. Em termos corporativos, isso representa um ativo de alto valor, com capacidade de entrega, resiliência e visão sistêmica.

Neste domingo, a Rede Globo escalou Caco Barcelos e Carlos de Lannoy para reportagens especiais no Irã e em Israel que foram exibidas no Fantástico. Ambos mostraram a vida da população durante o conflito. Caco, um dos poucos jornalistas do Ocidente a obter autorização para entrar naquele país, tem 76 anos e de Lannoy, 56. Infelizmente essa decisão da emissora é uma exceção no mercado.

Ignorar esse capital humano não é apenas um erro, mas um risco estratégico. Empresas que restringem suas contratações e oportunidades por idade reduzem sua diversidade cognitiva, empobrecem o debate interno e, muitas vezes, perdem consistência na tomada de decisão. A juventude traz velocidade e inovação, molda as novas percepções sobre a contemporaneidade, mas é a experiência que qualifica a direção.

É importante reconhecer que a área de Recursos Humanos tem operado sob múltiplas pressões, metas, cultura organizacional e, muitas vezes, vieses não declarados. O ponto aqui não é acusar, mas provocar reflexão. A longevidade deixou de ser exceção e passou a ser vetor estruturante da sociedade. Ignorá-la no ambiente corporativo é, no mínimo, um atraso de agenda.

O preconceito etário, ainda que sutil, soa cada vez mais deslocado. Não se sustenta em dados, tampouco em resultados. Ao contrário, revela uma desconexão com a realidade contemporânea. Em um mundo que exige adaptabilidade, inteligência emocional e capacidade de leitura de contexto, os 50+ não são um problema a ser evitado, mas uma solução que ainda está subaproveitada.

Se para o novo programa de volta à Lua a escolha passou por tripulações mais experientes do que aquelas vividas em 1969 no projeto Apollo, talvez não seja porque os dias atuais exigem menos bagagem, mas exatamente o contrário.


Imagem: NASA

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