Liev Tolstói publicou A morte de Ivan Ilitch[1] em 1886. A novela acompanha um magistrado que organizou toda a existência em torno do decoro e da conveniência, até descobrir-se diante de uma doença sem retorno. Tolstói define essa trajetória como a vida mais simples e comum e, por isso mesmo, a mais terrível.

O enredo começa pelo fim. Colegas de Ivan recebem a notícia da morte e a primeira reação de cada um é calcular o que aquilo significa para a própria carreira: as promoções que se abrem, as transferências que se viabilizam. Sob o pesar de fachada corre um alívio silencioso, o de que foi ele e não eu. A morte do outro entra na conversa como informação administrativa.

Em casa, o roteiro se repete em outra chave. A esposa e a filha tratam o adoecimento como interrupção de planos: o teatro, o noivado, a rotina da família. A agonia de Ivan é, antes de tudo, um transtorno doméstico. O que ele percebe, e que se torna o centro do seu tormento, não é a dor física. É a mentira. Todos ao redor sustentam a ficção de que ele está apenas doente, de que a recuperação se aproxima, de que aquilo não é o que é. Negam-lhe a verdade da própria condição, e essa recusa o isola mais do que qualquer sintoma.

A única exceção é Gerasim, o criado camponês. Ele sustenta as pernas do patrão noite adentro sem fingir constrangimento e diz, com naturalidade, que todos morrem um dia. A franqueza é o único conforto que sobra a Ivan, justamente porque não pede que ele participe da encenação.

Há na novela um detalhe que ilumina tudo. Ivan recorda do compêndio de lógica de Kiesewetter[2] o silogismo segundo o qual Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal. Sempre o achou correto aplicado a Caio, nunca a si mesmo. A mortalidade, como o declínio, é uma abstração reservada aos outros.

Ivan Ilitch não é velho. Morre por volta dos quarenta e cinco anos. Ainda assim, a novela descreve com precisão o mecanismo que alimenta o etarismo contra os idosos.

A doença coloca Ivan, antes do tempo, na posição social que a velhice impõe de forma permanente: a de quem deixou de produzir, deixou de exibir saúde e passou a lembrar aos demais aquilo que preferem não ver. O valor medido pela utilidade, o desconforto diante do corpo que decai, a pressa em afastar o que recorda a finitude. É o mesmo discurso.

O idoso ocupa de modo definitivo o lugar que Ivan ocupa por alguns meses: o do inconveniente, o do lembrete ambulante. E aqui retorna a ironia que Tolstói não poupa ao leitor, a mesma que aparece em Shakespeare (leia meu artigo anterior sobre o Rei Lear[3]). Quem trata o velho como peso está, com certeza estatística, redigindo o roteiro da própria velhice. Os colegas que calculam promoções diante do caixão fazem o que todos fazem: empurram para longe a morte que é também a deles.

A novela sugere um remédio, e ele tem o nome de Gerasim. Verdade e presença, sem encenação. Parar de tratar o declínio como algo que acontece apenas aos outros, lá adiante, com Caio. O etarismo, em qualquer direção, vive dessa recusa de ver.

 A literatura está aí para devolver o que insistimos em desviar dos olhos.


[1] TOLSTÓI, Liev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 1997. 96 p

[2] Johann Gottfried Karl Christian Kiesewetter ; nascido em 4 de novembro de 1766 em Berlim ; falecido em 9 de julho de 1819 na mesma cidade) foi um filósofo alemão de influência kantiana.

[3] Disponível em https://age-free.world/a-filhas-de-lear-invadiram-o-alto-da-lapa/

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