Rei Lear abre a peça dividindo seu reino entre as filhas. O que se segue não é uma disputa por terras: é uma campanha de desqualificação. Goneril e Regan usam a idade do pai como argumento: ele já não tem condições de governar, seu julgamento falhou, é hora de ceder. A crueldade aqui não é apenas filial. É política. A velhice, na lógica das filhas, é incompetência em forma humana  e, por isso, incompatível com espaços de poder. Shakespeare escreveu isso há mais de quatrocentos anos. A lógica segue atual.

No Alto da Lapa, bairro da zona oeste de São Paulo de classe média alta, o roteiro se repete em chave contemporânea. Moradores vêm pressionando a prefeitura para retirar cerca de 40 casas de repouso para idosos da região, alegando que os estabelecimentos desvalorizam imóveis de alto padrão.

O argumento oficial é de zoneamento, mas o comportamento dos protagonistas entrega o que está por baixo. Um morador tentou filmar a saída de um carro funerário após a morte natural de um homem de 94 anos, comentando aos seguidores: “Olha o absurdo. Mais um defunto.” Ao ser abordado por jornalistas, tentou empurrar o fotógrafo da Folha de S.Paulo. Outro colocou caixas de som na porta de outro, tocando AC/DC a todo volume.

O que o episódio revela não é uma disputa urbanística. É a velhice tratada como ameaça à paisagem. O idoso, aqui, não é um vizinho inconveniente por razões de comportamento: é inconveniente por existir, por envelhecer em público, por morrer de causas naturais a noventa e quatro anos num bairro caro. A presença de um carro funerário vira prova de acusação.

O argumento do zoneamento funciona como folha de parreira para encobrir o fenômeno conhecido como NIMBY (Not In My Backyard, não no meu jardim). É a mesma gramática usada para afastar clínicas de saúde mental, abrigos e qualquer instituição que lembre ao bairro que nem todo morador é jovem, saudável e produtivo. A diferença é que, no caso dos idosos, há uma dimensão adicional: quem hoje exige a retirada das casas de repouso está, com total probabilidade estatística, traçando o roteiro da própria velhice.

Em Lear, essa ironia não é poupada ao leitor. O rei que distribui poder para não envelhecer sob o peso dele termina sem poder, sem filhas e sem teto. As filhas que o desqualificaram pela idade não vivem para desfrutar o trono. A peça não condena a velhice, condena quem a usa como argumento de exclusão.

O Brasil envelhece. Especialistas apontam que o país enfrenta crescente demanda por espaços de acolhimento para idosos — e a resposta de parte da sociedade é erguer barreiras. Multas, cassação de alvarás, pressão sobre a prefeitura. A gestão municipal multou estabelecimentos em até R$ 13 mil e cassou seis alvarás apenas em uma do Alto da Lapa.

Etarismo não é apenas piada sobre memória ou cabelo branco. É a convicção, às vezes silenciosa, de que certas pessoas, que viveram tempo demais, deixaram de ter direito ao espaço. Lear perdeu o trono para essa convicção. Os moradores da rua Tomé de Souza estão tentando fazer o mesmo com um bairro. A diferença é que Shakespeare, ao menos, transformou isso em tragédia.

No Alto da Lapa, por enquanto, chama-se política de vizinhança. O nome certo é tragédia anunciada.

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