Existe uma falácia com nome em latim para quase tudo. A preguiça argumentativa atende por uma delas: o ad hominem.

Em “A Arte de Ter Razão” (Dialética Erística)[1], Arthur Schopenhauer define o argumento ad hominem como um estratagema em que, em vez de atacar o mérito da tese (ad rem), a refuta indiretamente conectando-a às ações, crenças ou falas anteriores do próprio oponente. Autores de manuais de lógica classificam o ad hominem abusivo e circunstancial como falácias de relevância, pois atacam a pessoa em vez de demonstrar a falsidade de suas premissas.

O ad hominem [2]clássico ataca a pessoa para evitar discutir a proposição: se fulano é hipócrita ou desonesto, supõe-se que sua tese também seja. Nem todo ataque à pessoa é falacioso. Quando o caráter do argumentador é exatamente o que está em julgamento, apontar suas falhas é pertinente, não desonesto. O problema é quando a característica citada nada tem a ver com o mérito do argumento.[3]

É essa distinção que a crítica geracional atropela com entusiasmo. Chamemos de ad gerationem. ocorre quando se tenta invalidar uma ideia ou afirmação atacando a sua fonte ou o seu contexto histórico de surgimento, em vez de avaliar a lógica do argumento em si. O mais popular nos nossos tempos são atirados em direção aos grupos geracionais.

A tese de um jovem é descartada porque ele é da geração Z, tem pouco foco, quer sentido no trabalho ou usa emoji demais. Na outra ponta, os mais velhos que são incompetentes nas novas tecnologias e que só repetem que no “seu tempo” tudo era melhor.

Não importa o conteúdo do que diz, importa sua data de nascimento

A geração virou um lugar de fala às avessas: antes usado para calar quem não teria autoridade para falar de certos temas, agora serve para calar quem teria autoridade demais, por ser muito jovem ou idoso e, portanto, supostamente merecedor de desrespeito.

A mecânica é a mesma da generalização já denunciada por mim a respeito de pessoas com deficiência: trocar o indivíduo pela categoria e a categoria pelo veredito pronto³. “Eles são preguiçosos”, “eles não aguentam frustração”, “eles querem tudo fácil”: troque “pessoas com deficiência” por “geração Z” ou por “baby boomers”  e o mecanismo retórico segue intacto, muda só o alvo da piedade ou do desprezo.

A vantagem do ad gerationem sobre o ad hominem tradicional é a eficiência: não é preciso conhecer a pessoa, basta saber a faixa etária. Um preconceito de aplicação em massa, produzido em série, como o próprio estereótipo, cuja origem é tipográfica.

A palavra estereótipo tem origem nas palavras gregas stereos e typos, que significam “impressão sólida”. O termo foi criado pelo gráfico francês Firmin Didot em 1794 para se referir a um processo de impressão gráfica que permitia a produção em massa de jornais, revistas e livros. 

O jornalista americano Walter Lippmann foi o primeiro a usar o termo com o sentido psicológico, em 1922. No seu livro Opinião  Pública, Lippmann usou o termo para descrever a forma como as pessoas simplificam e categorizam o mundo e as outras pessoas para facilitar a compreensão

Só que imprimir uma geração inteira sai mais barato e dá muito menos trabalho que imprimir um jornal cujas versões impressas só são lidas por “esses velhos”, enquanto os jovenzinhos preferem saber as notícias pelo Tik Tok.


[1] Schopenhauer, A. (1864). Eristische Dialektik: Die Kunst, Recht zu behalten. In J. Frauenstädt (Hrsg.), Arthur Schopenhauer’s handschriftlicher Nachlaß. F. A. Brockhaus.

[2]  Wikipédia. Argumentum ad hominem. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Argumentum_ad_hominem

[3] WALTON, D. apud Filosofia na Escola. Ad hominem abusivo: questionando o caráter do argumentador. Disponível em: filosofianaescola.com/falacias/ad-hominem-abusivo

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