O romance começa sem crianças. Antes de qualquer menino aparecer, Jorge Amado entrega ao leitor recortes de jornal e uma troca de cartas entre o periódico, o chefe de polícia, o diretor do reformatório e um padre.[1] A infância soteropolitana dos anos 1930 é primeiro catalogada, discutida e sentenciada pelos adultos; só depois lhe permitem existir na página. A escolha estrutural já é a tese do livro: os mais jovens são falados antes de serem vistos.

Publicado em 1937, o livro foi recolhido e queimado em praça pública em Salvador no mesmo ano, sob o Estado Novo.[2] Um livro sobre crianças tratadas como ameaça foi ele próprio tratado como ameaça. A coincidência é instrutiva. A sociedade que não suporta ver esses meninos também não suporta lê-los.

O que Capitães da areia expõe é uma forma específica de etarismo, hoje nomeada como adultocentrismo ou menorismo: o preconceito que a sociedade adulta exerce contra os mais jovens. Ele não opera sozinho. Cruza-se com classe e raça e, desse cruzamento, retira dos garotos aquilo que deveria ser evidente, a condição de crianças.

Menor é a palavra que apaga a criança

O vocabulário faz o serviço antes da polícia. Jornal e sociedade chamam os meninos de “menores”, “delinquentes”, “infratores”. “Menor” nomeia uma categoria jurídica[3], não uma criança. Com a palavra, some a inocência presumida, some a vulnerabilidade que costumamos associar à idade. No lugar dela instala-se a figura do adulto em miniatura perigoso, do indivíduo já formado e já culpado. Amado deixa o leitor assistir ao rótulo se formar na boca de gente respeitável, que discute os garotos com a serenidade de quem cataloga uma praga.

O Estado que responde com a cela

O Reformatório Baiano é anunciado como acolhimento e funciona como prisão. Diretor e guardas aplicam castigos físicos e psicológicos; alguns dos meninos, como Sem-Pernas, carregam as marcas do que viveram lá. O Estado encontra a vulnerabilidade social da infância e responde com repressão policial e encarceramento, ignorando qualquer legislação protetiva que devesse resguardar direitos mínimos. Há um cálculo cruel na cena: a instituição criada para corrigir a infância é justamente onde a infância é destruída com mais método.

Adultos aos treze anos

Abandonados, os meninos assumem papéis que a idade não pediu. Arquitetam roubos, trabalham em condições degradantes, administram a moradia no trapiche, defendem-se no corpo. Ritos de passagem chegam de forma abrupta, e a sexualidade se antecipa sem amparo. O que lhes é subtraído tem nome: o lúdico, a educação formal, o afeto de uma família. Sem-Pernas se disfarça de criança rica perdida para entrar nas casas e prepará-las para o assalto, isto é, encena a infância que lhe negam como instrumento de sobrevivência. Ao fim, prefere se atirar à morte a voltar ao cativeiro. Quando o romance oferece a Pedro Bala uma saída, ela também é adulta: a militância operária. A única continuidade disponível para essas crianças é uma vida adulta acelerada.

Uma praga a ser varrida

Para a elite soteropolitana, os Capitães da Areia são um problema urbano a eliminar ou esconder, nunca vítimas do descaso que os produziu. A caridade e a polícia comparecem como dois gestos da mesma recusa: a de reconhecer nesses garotos crianças com direito a proteção. A indiferença aqui não é distração. É uma decisão sobre quem merece ser visto.

A geração que não existe no singular

Erick Sales costuma observar que não existe uma geração Z homogênea; ela se fratura por classe, raça e outras discriminações[4] , assim como qualquer outra geração. Amado já operava com essa evidência. A criança da burguesia baiana e o menino do trapiche compartilham um ano de nascimento e mais nada. A infância não é uma experiência única distribuída igualmente; é um privilégio distribuído de forma desigual. O mesmo vale para a etiqueta “geração Z”, que achata diferenças enormes sob um único recorte etário. O estagiário e o adolescente aliciado pelo tráfico têm a mesma idade e vivem em séculos distintos.

A areia se move. As instituições ganham nomes mais suaves, e o reformatório de Amado hoje se apresentaria sob alguma sigla de sonoridade protetiva. A pergunta permanece de pé: quem tem permissão para ser criança, e quem é arquivado como “menor” antes mesmo de ser visto.


[1] AMADO, Jorge. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1937

[2] Capitães da Areia foi formalmente banido e teve centenas de exemplares queimados em praça pública no final de 1937, poucos dias após a instauração da ditadura do Estado Novo por Getúlio Vargas. O episódio ocorreu em Salvador, na Bahia, na Cidade Baixa. Foram confiscados de livrarias locais e queimados exatamente 808 exemplares de Capitães da Areia. Jorge Amado foi o alvo principal daquela fogueira: outras obras suas (como Mar Morto, Jubiabá e Cacau) também foram destruídas, totalizando mais de 1.600 livros do autor transformados em cinzas. Fonte:

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-41969983

[3] O termo “menor”, como categoria jurídica, designa a pessoa que não atingiu a maioridade civil e é, por isso, tida como incapaz para certos atos da vida civil; historicamente, o direito também aplicou o rótulo a adultos interditados, ou considerados incapazes. A palavra deriva do latim minor (“menor”, “inferior”). Vale notar que, no uso sociológico, “minoria” indica antes uma posição de subordinação do que uma quantidade: um grupo pode ser maioria numérica e, mesmo assim, minoria em direitos.

[4] Observação recorrente de Erick Sales do Age Free World.

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